Apenas um cadáver
O pensamento do aniversariante de hoje continua atual, não importa o que digam seus detratores.
Hoje, completam-se 208 anos do nascimento de Karl Marx. Nego Bispo, que em alguns círculos de moderninhos brasileiros ganhou o estatuto de guru, disse certa vez que Marx é “um cadáver apenas”.
Sim, a pessoa física é apenas um cadáver. Nego Bispo, hoje, também. Todos nós chegaremos lá algum dia, uns antes, outros depois. Afinal, segundo informa a sabedoria popular, a morte é a única coisa certa desta vida.
Mas a obra de Marx está incrivelmente viva e, mais do que isso, em forma. Mais de um século e meio se passaram desde o Manifesto comunista, que ele escreveu junto com seu parceiro Friedrich Engels, ou da publicação do primeiro volume de sua obra magna, O capital – e eles continuam essenciais para quem quer que deseje compreender o mundo em que vivemos.
Marx não era um profeta, não tinha bola de cristal, não previu nada do que ocorreria no futuro. Seus livros são obras para serem lidas, interpretadas, criticadas, emendadas, não versículos sagrados. Aqueles que o tratam como infalível, que buscam encerrar discussões com uma citação de sua obra, como se ela encarnasse uma verdade absoluta, fazem muito mal à esquerda (e ao marxismo).
O que ele fez foi uma análise profunda e detalhada do sistema social vigente na sua época, que é infelizmente o mesmo ainda vigente na nossa época, o capitalismo – e indicou alguns determinantes do seu desenvolvimento. Não é possível entender o mundo sem entender o capitalismo e não é possível entender o capitalismo sem estudar Marx.
E, como escrevi alhures, toda a ciência social digna de seu nome toma por base alguma concepção materialista da história. Portanto, é, em alguma medida, tributária do pensamento de Marx.
A exploração do trabalhador pode tomar novas formas hoje, não previstas por Marx, como mostra a plataformização da economia, mas ainda assim ela, a exploração, que consiste em extração de sobretrabalho, possibilitada pela separação entre o trabalhador e os instrumentos necessários para a produção, continua sendo central no nosso mundo. A integração da classe trabalhadora à sociedade de consumo, o desenvolvimento da indústria cultural e agora as plataformas sociodigitais geraram formas de alienação com as quais que ele também nem sonhava. Mas a alienação, entendida como a incapacidade de conectar a própria atividade com a produção do mundo social, continua sendo um fenômeno fundamental da experiência humana sob o capitalismo.

Ele obviamente não antecipou o colapso climático, embora estivesse atento e preocupado com a degradação do mundo natural, que já via no século XIX. Ainda assim, nenhuma crítica ecológica consequente pode prescindir da crítica à dinâmica da acumulação capitalista, tal como explicada por Marx, para entender a destruição do meio ambiente. Ardoroso defensor da igualdade entre mulheres e homens, dedicou pouca atenção, em seus escritos, àquilo que hoje se convencionou chamar de “questões de gênero”. Mas foi em sua obra que encontraram inspiração correntes indispensáveis da reflexão feminista, sem as quais a subordinação das mulheres não pode ser entendida, como a teoria da reprodução social.
Marx está vivo porque a obra dele e a de muitos que nela se inspiraram continuam sendo indispensáveis para quem quer entender e transformar o mundo. Não é uma receita de bolo, não é um livro sagrado, é teoria feita com o máximo de rigor científico e de compromisso político – mostrando, aliás, que as duas coisas podem andar juntas.
Nego Bispo não foi o primeiro, nem será o último a decretar a morte de Marx. O anúncio costuma acontecer em duas circunstâncias diversas. Quando parece que o capitalismo vai bem, seus defensores dizem que Marx pode ser esquecido. Foi assim no imediato pós-guerras, por ideólogos estadunidenses, como Daniel Bell, e também europeus, como Raymond Aron. Antes ainda, no pré-Primeira Guerra, Benedetto Croce, um improvável Nego Bispo italiano, decretou: “Marx está definitivamente morto para a humanidade”.
A segunda circunstância em que a irrelevância de Marx é anunciada é quando parece que a luta dos dominados não tem futuro – e aí ganham força tendências regressivas, amparadas em misticismos, quando não em mistificações de vários tipos, como uma forma de evasão ou, nos piores casos, de capitulação disfarçada de pegada alternativa.
Marx nunca idealizou nenhum passado mítico, nunca julgou que se refugiar na “ancestralidade” fosse solução para os nossos problemas. Era um otimista, certamente bem mais do que somos agora, mas nunca alimentou ilusões. Assinaria embaixo da fórmula de um de seus mais célebres continuadores: é preciso operar a partir da “análise concreta da situação concreta”. Quando o cenário é difícil, como no nosso caso hoje, é um método doloroso de ser aplicado. Mas quem quer mudar o mundo, em vez de apenas escapar dele, não tem escolha.
Marx dava centralidade à luta para transformar a sociedade – a luta de classes – e escreveu celebremente que a revolução deve extrair sua poesia do futuro, isto é, da promessa de uma sociedade livre e justa, não do passado. Já escrevi aqui que um dos nossos desafios hoje é encontrar essa poesia, quando muitos na esquerda preferem suspirar por versões edulcoradas de um passado que nunca existiu da maneira que imaginam, seja ele a democracia liberal (a centro-esquerda), o stalinismo (os que brincam de RPG de bolchevique nas redes sociais) ou as sociedades primitivas da África ou das Américas antes das invasões dos europeus (os hipsters do identitarismo).
Precisamos de Marx mais do que nunca. Não como oráculo, mas como parceiro no esforço de decifrar a realidade e buscar caminhos para evitar a catástrofe.
É por isso, porque seu pensamento permanece vivo, que há tanto esforço para declará-lo morto – em vão.


Se Marx é o vivo mais continuamente assassinado do mundo burguês, sempre ressurrecto, o que dizer de sue principal discípulo, Lênin, o da "análise concreta da situação concreta"? Este, além de assassinado pelos bem-pensantes, é muito mais um fantasma nas universidades, a quem a simples aparição sequer é permitida. Bem, Freud, que em História está longe dos marxistas, também pode explicar o interditamento pela ausência, é preciso reprimir o irreprimível, ou, no popular, em casa de enforcado não se fala de corda.
Bom dia! E a práxis do marxismo nestas bandas é escrever sobre como analisar a realidade, quando não o embate institucional. A isso nomeiam como maturidade a luta concreta. Mas é cada uma...