Assassinato pelo TikTok
Quem vai cobrar da plataforma a responsabilidade pela morte da menina no Distrito Federal, causada por uma de suas “brincadeiras”?
Sarah tinha oito anos de idade. Morava na Ceilândia, cidade satélite de Brasília. Na quinta-feira da semana passada, seu avô a pegou na escola e a levou para casa. Horas depois, quando foi levar-lhe um lanche, encontrou-a desacordada. No hospital, a equipe médica tentou reanimá-la durante uma hora, mas a menina morreu.
Ela foi uma vítima do desafio do desodorante, dirigido a crianças e adolescentes e que viraliza no TikTok. O desafio é inalar aerossol pelo maior tempo possível. Uma das muitas “brincadeiras” estúpidas, potencialmente mortais, que circulam pelas redes sociais e são acessadas por um público vulnerável.
A tragédia da menina da Ceilândia é mais uma prova – como se ainda fossem necessárias novas provas – de que é urgente regular as mídias sociais. O TikTok lucra com seus joguinhos assassinos. O YouTube, com anúncios de sites ilegais de apostas, como voltou a ser denunciado recentemente. A Meta, isto é, Instagram e Facebook, veicula sem parar anúncios de golpes de diferentes tipos, de curas milagrosas a promoções de produtos que seriam incrivelmente vantajosas se não fosse pelo detalhe de que eles nunca são entregues.
Sim, há perpetradores específicos, que precisam ser punidos – no caso, quem inventou e divulgou o tal desafio. Mas as plataformas são cúmplices. Elas se omitem de forma deliberada e “impulsionam” estes conteúdos, porque ganham com isso.
É a mesma coisa com campanhas de desinformação, manipulação política, incentivo à violência, pedofilia. As plataformas estão se lixando para as consequências, desde que gere lucro.
Quando eclode um escândalo, o que fazem? Fingem que lançam medidas inócuas e dispararam campanhas hipócritas, como a da Meta, agora, mostrando suas “contas de adolescentes” no Instagram.
Num ambiente em que o usuário declara a própria idade sem qualquer controle e milhões de crianças com idade abaixo do mínimo oficial de 13 anos têm perfis, acredita na propaganda da Meta quem quiser.
Como é mesmo que dizia Goebbels? Uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Zuckerberg deve ter uma foto do ministro nazista pendurada no seu escritório.
Todos sofrem com o império das plataformas sociodigitais. Elas são prejudiciais à qualidade do debate público, à democracia, à soberania nacional, à nossa autonomia individual, à privacidade, aos direitos trabalhistas, à educação, à cultura, à verdade.
Todos sofrem, mas as crianças são as primeiras vítimas. A pequena Sarah morreu. Outras morrem nas chacinas nas escolas, praticadas por incels gerados nos perfis e nos grupos de supremacismo masculino que pipocam no Discord, no TikTok, no Instagram. Outras colocam sua vida em risco, outras são alvo de pedófilos que arregimentam suas vítimas nas redes. Outras são levadas a sérios distúrbios de imagem e de autoestima, motivados pelos filtros do Instagram e pela cultura do like. E há também todas aquelas que se sentem desincentivadas ao estudo e a uma carreira profissional, porque julgam que a melhor perspectiva de futuro é virar influencer, seja no TikTok, no YouTube, no Instagram ou no OnlyFans.
Mas ninguém faz nada. A direita, como nós sabemos, só se preocupa com as crianças antes delas nascerem. E as big techs se tornaram suas grandes aliadas e parceiras, em especial, mas não só, no objetivo de garantir um espaço seguro para disseminação de todo tipo de mentira.
À esquerda, poucos são os que dão ao tema a prioridade que merece. As críticas às plataformas aparecem aqui e ali, mas no dia a dia quase todos se rendem gostosamente à sua lógica superficial e imbecilizante, pulando de trend em trend, sem parar para pensar no que significam.

Uma sociedade que não é capaz de proteger as suas crianças, pior, que nem sequer se preocupa em proteger suas crianças, é uma sociedade doente.



Eu queria entender a razão das pessoas continuarem nessas redes. É ruim, vicia, faz mal à democracia, os donos são bilionazis, é perigoso pra saúde mental, mas por alguma razão as pessoas não saem de lá. Ficam discutindo com robozinho de extrema direita como se fosse real, rsrs! Esses bilionazis descobriram uma forma super eficiente de dominar todo mundo.
"Ain, mas tem gente que trabalha lá", ok, mas não é pra quem trabalha, é todo mundo mesmo. Parecem que se esqueceram que ninguém precisa de rede social nenhuma pra se comunicar.
A Meta já foi denunciada por atrair propositalmente adolescentes para sua plataforma. É loucura, mas ter crianças e adolescentes lá funciona muito bem pra vender e dar pico.
Enquanto isso, movido por um sionismo militante e babante, a caça aos palestinos e pró-palestinos é super eficiente nas redes do Meta. Meu amigo Khaled está - de novo neste ano que nem na metade está - com a conta restrita.
Fact checking nunca funcionou e foi transformado em arma contra - de novo - os palestinos e a esquerda que se diferenciou dos liberais. Tem escândalo de empresa de fact checking com o partido democrata e o NYT. Enfim, fact checking também perdeu a credibilidade.
O que eu vejo agora é, na esquerda, todo mundo se espalhando pelas alternativas ao Meta e Google, o que vai só atrapalhar a articulação. Alguns na esquerda jovem estadunidense estão indo para o Discord, que eu destesto. Como você diz, o tema do espaço público para comunicação social e o papel das big techs na privatização dele está sendo ignorado. Você mostra o alto preço da desregulamentação absoluta no bem estar das crianças. Um dos meus amigos aqui é profissional de informática e, por conta disso e também da qualidade da educação em estados super conservadores como Oklahoma, manteve os dois filhos em homeschooling, e sem acesso a redes sociais. Tem mais gente (progressista, racional, do bem) fazendo isso aqui, gerando pequenos núcleos de amigos e conhecidos se juntando para fazer o que o Estado não faz: educar os filhos e protegê-los das big techs (distópico, né?). Fico pensando que essa questão foi considerada secundária por tantos anos que talvez agora esteja meio tarde.
Você tem alguma sugestão de ação coletiva?