Entre utopia e distopia
As classes dominantes operam no modo Luís XV e pensam: "Depois de nós, o dilúvio". É preciso um projeto revolucionário para enfrentá-las.
Na semana passada, estive na Reunião da SBPC, em Niterói, para participar da mesa “Entre utopia e distopia”, organizada por Renato Janine Ribeiro e que contou também com a participação de Luis Nassif. Esta foi minha fala.
Pensando sobre o tema da mesa de hoje, me veio à mente o dístico de Romain Rolland, que Gramsci gostava de citar: precisamos tanto do pessimismo da razão quanto do otimismo da vontade. Para ser sincero, nos tempos que correm o trabalho da razão anda muito mais fácil do que o trabalho da vontade. Existem todos os motivos para o pessimismo, esfregados na nossa cara dia após dia. A verdade é que parece que não temos saída: que estamos sendo empurrados inexoravelmente para uma catástrofe. É preciso um esforço permanente para lembrar que esse sentimento de inevitabilidade e de impotência coletiva é, também ele, uma armadilha ideológica.
Achar que não temos saída, que o futuro já está determinado, que os poderosos não podem ser vencidos, é o caminho para abrir mão da resistência, para a capitulação ou mesmo, para quem tem essa chance, para a cooptação.
É preciso evitar essa armadilha, lembrar que a história não pára e somos nós, coletivamente, que determinamos seus curso. Sem, com isso, negligenciar ou diminuir a gravidade da situação que estamos vivendo.
Temos, em primeiro lugar, as ameaças existenciais a toda a humanidade, que se acumulam de uma maneira inédita em nossa história como espécie. A maior delas talvez seja o colapso climático, cujo enfrentamento exige mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o mundo natural. Em particular, exige o rompimento com a lógica da acumulação capitalista e o redirecionamento da economia, do valor de troca para o valor de uso. Justamente por isso, é tão difícil encaminhar soluções – é mais fácil negar o que está acontecendo ou esperar por uma resolução mágica que a tecnologia traria. Mas os custos ambientais da “transição energética” muitas vezes são minimizados por aqueles que esperam lucrar com ela.
Para dar um exemplo: um estudo recente mostrou que o impacto ambiental da produção de um veículo elétrico é tão maior que o da produção de um automóvel a combustão que, muitas vezes, toda a vida útil dele não compensa a diferença. Sem falar em toda a infraestrutura, nas cidades tomadas por pistas de rolagem e estacionamentos.
A conclusão é clara. Não é possível manter a primazia do automóvel particular. É necessário enfrentar os interesses econômicos e a cultura que eles incentivaram.
É difícil. As montadoras são poderosas e, embora empresas chinesas, estadunidenses, coreanas, japonesas e europeias briguem entre si por fatias maiores do mercado, todas concorrem para a promoção da ideologia do consumo – neste caso específico, a ideologia do automóvel particular como símbolo de conforto, liberdade e status.
Mas, de maneira mais geral, pensando não só no caso do automóvel, os custos do consumismo, da obsolescência programada e do individualismo se mostram altos demais. E isso exige uma solução coletiva, não se soluciona pelo voluntarismo de cada um. São necessários equipamentos coletivos que permitam superar o transporte privado, a fim de que esta transição seja factível para uma grande quantidade de pessoas.
O poder político parece impotente para regular a situação. Temos, de um lado, negacionistas no poder, como o Donald Trump, que não apenas não endossam, mas se esforçam para destruir quaisquer políticas de combate ao colapso climático. De outro lado, estão governantes e também empresas que afirmam compromissos com a chamada “sustentabilidade”, mas que sempre estão prontos a recuar quando os lucros parecem ameaçados ou a pressão aumenta. Mesmo na China, a fusão de interesses entre a ditadura e os grandes conglomerados leva a resultado similar.
Ao lado do aquecimento global, temos os riscos de uma nova pandemia, também causada pelo desequilíbrio na nossa relação com o meio ambiente. Pior, a situação é agravada pela saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde e a suspensão do financiamento estadunidense para ações sanitárias. Por incrível que pareça, menos de uma década depois da Covid-19, estamos em posição pior, como planeta, para enfrentar uma crise semelhante.
Temos também o nosso velho conhecido, o apocalipse nuclear. A agressividade das grandes potências está ampliada, num mundo que parece ter perdido a esperança de regrar as relações internacionais de qualquer forma que não seja pela lei do mais forte. A invasão da Ucrânia pela Rússia, os ataques dos Estados Unidos ao Irã, bem como sua cumplicidade ativa com o genocídio levado a cabo por Israel na Palestina, são todas indicações de um cenário internacional que não nos permite alentar muitas esperanças.
Para completar esse breve quadro, temos o avanço acelerado e descontrolado da inteligência artificial, um cenário de ficção científica, sobre qual é difícil fazer previsões, mas que não poucos especialistas veem também como uma possível ameaça à humanidade.
Marx já dizia que a máxima atribuída a Luis XV ilustra o espírito destrutivo do capitalismo: “après moi, le déluge”. Depois de mim, o dilúvio. Isto é, vamos extrair o máximo de vantagens agora, porque quando as consequências vierem não estaremos mais aqui para sofrê-las. Esta observação é mais apropriada hoje do que nunca.
Mesmo sem um cenário de extinção ou quase-extinção da humanidade, a distopia parece estar a alcance da mão. O poder das grandes empresas de tecnologia, destruindo as redes de sociabilidade que são fundamentais para a nossa vida e desmoralizando a ideia de verdade, está à nossa vista. E elas não têm pudor de usar todo seu poder para evitar qualquer forma de regulação pela sociedade.
Existe um projeto deles, que alguns enunciam de forma radical. Peter Thiel, o criador do PayPal e dono da Palantir, o bilionário que é uma espécie de mentor intelectual ou de guru da nova extrema-direita, influente no governo Trump, adota um discurso messiânico, de luta contra o que chama de “Anticristo”. Esse anticristo seria uma combinação de regulação internacional, ambientalismo e promoção da igualdade. Sua encarnação – e ele fala sério – seria a Greta Thunberg. A derrota do Anticristo, na sua narrativa, viria com o poder ilimitado dos bilionários, que apresenta como uma forma de meritocracia: o fato de serem bilionários provaria que eles são superiores. Para o resto da humanidade, cujo emprego seria cada vez mais desnecessário, restaria uma vida no limite da subsistência, com os prazeres sendo vividos de forma delegada nas redes sociais, nos stories dos ricos e famosos ou da IA. Um pouco de emoção viria das apostas online. É assustador que um projeto como esse seja não apenas pensado, mas enunciado publicamente e levado a sério em círculos de poder.
No Brasil, como em grande parte do resto do mundo, estamos presos na cilada de uma conjuntura política marcada pela força da extrema-direita. Claro que temos que nos felicitar pelo fato de que ela não está mais no poder – e esperamos que as eleições de outubro confirmem essa situação. Mas isso não quer dizer que muitos de seus efeitos nocivos não se façam sentir. A naturalização da violência como forma de solução de conflitos, o apelo às piores facetas da nossa humanidade, o desprezo pela verdade, a degradação permanente do debate público: toda a política é deslocada pela presença de uma força extremista. As discussões importantes têm que ser adiadas, porque a energia é drenada para reafirmar o básico. Quem diria que, quarenta anos depois do fim da ditadura, estaríamos tendo que explicar que a tortura não é correta, que as pessoas não devem ser punidas por causa de suas ideias, que mulheres, negros ou homossexuais não são inferiores, que a sociedade bem ordenada tem que garantir a igualdade entre seus cidadãos.
Voltar a discutir o voto feminino: quando Margaret Atwood escreveu O conto da aia, faz mais de quarenta anos, levou sua imaginação de escritora ao mais extremo. Era uma hipérbole, um exagero para iluminar algumas tendências regressivas. Hoje, para muitos, está na ordem do dia.
Nosso experimento democrático, iniciado com a volta dos civis ao poder e cristalizado na Constituição de 1988, sempre enfrentou limitações. Nossas classes dominantes nunca tiveram grande identificação com o povo brasileiro, muito menos apreço pelas regras democráticas.
Os governos petistas mostram isso. Apesar do compromisso inequívoco com a redução da vulnerabilidade dos mais pobres, foram necessárias inúmeras concessões para garantir que avanços fossem possíveis. Concessões para nossa elite política predatória, para nossa burguesia atrasada, para comerciantes da fé picaretas, para controladores de meios de comunicação carentes de ética. Nos dois primeiros mandatos, Lula governou buscando brechas que permitissem alguma mudança, mas sabia que não era possível um projeto de transformação mais amplo.
Quando Dilma tentou dar uns passos nessa direção, demitindo alguns corruptos e esboçando, ainda que de forma muito incipiente, um projeto de desenvolvimento, com restrição ao império do capital especulativo, foi derrubada.
Depois do golpe de 2016 e do avanço do extremismo reacionário, encarnado na figura de Jair Bolsonaro, a situação piorou muito. No terceiro mandato de Lula, a extrema-direita continuou na ofensiva. Colocamos alguns golpistas na cadeia, é verdade, mas não conseguimos sequer reafirmar o compromisso nominal da elite com as regras do jogo eleitoral. Quiseram anistia, apoiam extremistas, está aí o Flávio insinuando de novo que tentará um golpe caso perca a eleição.
Vou repetir o que escrevi há alguns meses, quando se completaram dez anos da deposição da presidente Dilma: o terceiro governo de Lula não conseguiu avançar o que era necessário na recomposição da ordem que o golpe e o bolsonarismo devastaram. É como se uma casa tivesse sido atingida por um furacão e uma enchente. O governo Lula tomou conta, tirou um pouco da lama, trocou umas lâmpadas. Mas as janelas continuam quebradas, as paredes rachadas. As fissuras que o golpe de 2016 fez em nossa institucionalidade democrática, que sempre foi meio capenga, continuam aí.
Não estou culpando o governo. Sinceramente, não sei como teria sido possível fazer muito mais. Estou descrevendo uma situação.
Contra isso, é necessário encontrar caminhos para sair da defensiva e apresentar ao país algo além da nostalgia pela ordem que foi destruída. É preciso construir um projeto de desenvolvimento que conjugue pelo menos quatro eixos principais:
(1) combate às desigualdades, promovendo a melhoria das condições e das perspectivas de vida da maioria da população;
(2) aprofundamento da democracia, tornando-a menos vulnerável a ataques e mais responsiva a uma população mais qualificada politicamente;
(3) garantia de uma inserção soberana no cenário internacional, sem ser satélite nem dos Estados Unidos, nem da China, nem de ninguém; e
(4) respeito ao meio ambiente, com manejo responsável e equilibrado dos recursos naturais.
Alguém vai dizer que nada disso é fácil. Não é mesmo. É preciso enfrentamento – contra os interesses internacionais que desejam nos tutelar e contra nossas elites, tanto econômica quanto política, que hoje romperam qualquer tipo de solidariedade com o povo, mesmo nominalmente, e ostentam um comportamento claramente predatório. Não se importam em adotar uma política de terra arrasada; parece que seu projeto é pilhar o que for possível para ir morar em Miami.
É necessária radicalidade política para construir esse projeto. Mas é uma tarefa da qual não podemos capitular. Creio que o grande diferencial da esquerda, como agente político, é a sua convicção de que, apesar de todas as circunstâncias, apesar de todas as formas de manipulação das mentalidades, é possível que as pessoas se conectem com sua própria experiência no mundo e aprendam a partir dela. Os inimigos detém os meios de difusão, controlam as big techs, dispõem de -todos os meios para promover a alienação, o conformismo, a estupidez, a desesperança. Mas, por outro lado, existe a realidade da vida vivida. E existe um enorme fluxo de indignação e de vontade de mudança atravessando a nossa sociedade.
A extrema-direita foi competente ao capitalizar estes sentimentos em seu favor. De uma maneira perversa, faz com que o descontentamento com o mundo em que vivemos seja dirigido não contra as estruturas que o produzem, mas contra as brechas que os dominados foram capazes de introduzir nestas estruturas – contra as políticas de promoção de igualdade, as transferências de renda, as ações afirmativas. À esquerda, cabe largar de sua posição de guardiã do que restou de uma ordem em decomposição, que nunca representou os seus sonhos, e se colocar como portadora do projeto de uma sociedade renovada. Assim, ela terá condições de disputar a transformação de que precisamos.
É impossível, aqui, não lembrar do alerta de Walter Benjamin, de que era necessário um freio de emergência para impedir o colapso da sociedade humana. A revolução, para ele, não era o anúncio de uma nova era, mas, em primeiro lugar, o impedimento do desastre. Ele escrevia no momento da ascensão do nazismo. Nossa conjuntura não é menos dramática.
A revolução de que precisamos não passa necessariamente pela tomada de uma Bastilha ou de um Palácio de Inverno. Passa pelo realinhamento de nossas prioridades como sociedade e pela redistribuição do poder dentro dela. É o que precisamos construir coletivamente.


