Lembrando de Collor
Documentário da Globoplay tem falhas, mas é competente ao mostrar que o “caçador de marajás” foi um visionário da decadência da política.
Era final de 1988 ou comecinho de 1989, se não me falha a memória. Perto da meia-noite fui com meu camarada Jaime Coelho tomar uma cerveja no Reçaka, na Beira-Mar, em Florianópolis. O Reçaka era o bar de Ugo Dicklhuber, veterano militante comunista – a grafia muito especial do nome tinha um sentido, com o cê-cedilha representando uma foice e o K, um martelo. Mas, na época, era o point onde se encontravam políticos de todos os matizes.
Naquela noite, estávamos bebendo nossa despretensiosa cerveja, com o bar quase vazio, quando outra mesa foi ocupada por duas pessoas. Uma delas era Esperidião Amin, filhote da ditadura, ex-governador e então prefeito recém-empossado (ou prefeito eleito) da cidade.
O outro era Fernando Collor, governador de Alagoas que tinha se projetado nacionalmente com uma campanha de mídia sobre o combate aos funcionários públicos com altos salários – os “marajás”. Na época nós não sabíamos, mas estávamos testemunhando um dos movimentos de Collor para viabilizar sua candidatura à presidência da República.
Collor estava a ponto de abandonar o partido pelo qual se elegera governador, o PMDB. Nele, a vaga para candidato à presidência já estava preenchida: era de Ulysses Guimarães.
Espertamente, ele entendeu melhor do que ninguém as duas características centrais da eleição de 1989, a primeira eleição presidencial direta em quase 30 anos.
Em primeiro lugar, tratava-se de uma eleição “solteira“: só para presidente, sem nenhum outro cargo em disputa. Isso significava que não era necessário fazer alianças para garantir apoios de candidatos a governador, a senador, a deputado. As estruturas partidárias, neste cenário, perdiam centralidade.
Além disso, era uma eleição em que a televisão teria um papel dominante – outro fator de redução do peso dos partidos.
Collor fez uma investida de mídia, com o mote dos “marajás”, ganhando envergadura nacional a partir de um estado periférico. Colonizou três partidos nanicos e usou o tempo de propaganda partidária deles para ganhar horas de exposição em rede nacional de rádio e TV. Ao selar alianças como aquela que casualmente testemunhei, com Amin, montou uma “empresa político-eleitoral”, como disse José Álvaro Moisés, que se estabeleceu com vistas a uma competição específica, sobrepondo-se aos partidos tradicionais (e também a expensas deles).
Como sabemos, ele se elegeu, fez um governo com fortes pitadas de dramalhão mexicano e sofreu impeachment em 1992.
A série documental Caçador de marajás, dirigida por Charly Braun e em exibição na Globoplay, recupera este período. Fala um pouco da origem de Fernando Collor, filho de um senador alagoano que matou um colega em plenário. Nascido no Rio de Janeiro, vocacionado para ser playboy, casou-se com uma herdeira milionária e, jovem e sem experiência, ganhou o posto de prefeito (nomeado, não eleito) de Maceió.
Daí, elegeu-se deputado federal; casou-se pela segunda vez, com Rosane, uma legítima representante de Canapi, pequeno município do sertão; virou governador das Alagoas e de lá alcançou a presidência.
A campanha eleitoral é lembrada em seus traços principais, incluindo a tentativa de Silvio Santos entrar como candidato de última hora e os importantes debates do segundo turno, transmitidos em cadeia pelas emissoras de TV. A manipulação da edição do segundo debate no Jornal Nacional, para oferecer uma impressão de triunfo arrasador de Color, merece atenção. Mas não se discute de onde veio a decisão – a versão oficial da Rede Globo, hoje, é que foi uma decisão do diretor Alberico de Souza Cruz, sem participação dos Marinho.
Este é, aliás, um dos pontos cegos do documentário. A investida de Collor junto à mídia, para se projetar nacionalmente a partir do governo de Alagoas, é apresentada como se fosse uma questão de seduzir jornalistas, sem nenhuma referência aos acertos com os donos das empresas. Mario Sergio Conti, que hoje posa de cronista “progressista” e que escreveu um best-seller sobre a imprensa e Fernando Collor, chega a defender as capas que deu para o “caçador de marajás”, quando era diretor de redação da Veja, como se fossem fruto apenas de genuíno interesse jornalístico.
Mas é claro que a história não se conta por inteiro sem colocar Roberto Marinho e Victor Civita como personagens.
No governo, Collor adotou uma política de abertura total da economia brasileira. As críticas, nos comentários, são poucas; em geral, embora sejam feitos reparos pontuais, a visão é de que ele de fato contribuiu para a “modernização” do Brasil. Bem mais negativa, obviamente, é a análise sobre o choque antiinflacionário, baseado no confisco da poupança. Ainda que haja vozes que defendem que era necessária uma redução brutal da liquidez para enfrentar uma inflação que andava na casa dos 80% ao mês, ninguém deixa de reconhecer o amadorismo da equipe econômica comandada por Zélia Cardoso de Melo, Antônio Kandir e Ibrahim Eris. O plano rapidamente fracassou.
Com a inflação indomada, o governo degringolou. Brasília vivia de fofoca em fofoca. Collor fazia rituais de magia negra na Casa da Dinda, a mansão familiar no Lago Sul, em que preferiu viver em vez de se mudar para o Palácio da Alvorada. Zélia iniciava, ao som do bolero “Besame mucho”, um caso com seu colega de ministério, Bernardo Cabral. Perguntado sobre o que sua mulher, Zuleide, achava da história, Cabral respondia, espirituoso: “Ela é lady até no nome”.
(Deputado pelo Amazonas, muito mais velho que Zélia, Cabral ganhou na época o apelido de “boto tucuxi”. Isso não está na série, fui eu que lembrei.)
As desventuras da vida conjugal do presidente também eram públicas. Era noticiado se ele estava ou não usando aliança. Na presidência da Legião Brasileira de Assistência, Rosane se embananava com escândalos de corrupção. Contava, em vão, com o apoio do marido para permanecer no cargo.
Inábil, Collor perdia apoio na opinião pública, na burguesia e no Congresso. Por causa de brigas relacionadas à política de Alagoas, afastou-se de Renan Calheiros e de Cleto Falcão, que tinham desempenhado papel central em sua ascensão política. Ficaram com ele, do grupo inicial, Claudio Humberto, um jornalista de moralidade pra lá de duvidosa, e PC Farias, que tinha sido o tesoureiro da campanha e que permanecia meio nas sombras.
A queda veio na onda de um embate familiar. Pedro, o irmão mais~moço, começou a vazar informações para a imprensa – para a mesma Veja que tanto fizera pela eleição de Collor. Foi ele que ajudou a lançar luz sobre a figura de PC Farias, operador dos esquemas escusos do governo.
Houve um pouco de tudo na briga entre os irmãos. Pedro tinha mágoas antigas: a mãe, dona Leda (pronunciava-se Léda, sabe Deus por quê), preferia Fernando. Julgava também que não era valorizado, cuidando das empresas da família enquanto os outros se dedicavam aos negócios que bem entendiam. Dizem que se sentiu escanteado, queria ter influência em Brasília e, não conseguindo, não permitiu que os órgãos de comunicação que controlava em Alagoas servissem de mera correia de transmissão da propaganda do governo. Para completar, corria o boato de que o presidente dava em cima da cunhada, Maria Thereza, filha de um dos maiores usineiros do estado.
Entrevista após entrevista, reportagem após reportagem, o governo vai se fragilizando. PC Farias pagava as contas do presidente e de seu círculo íntimo, com dinheiro vindo sabe-se lá de onde. (Lembro que fui em uma passeata e o povo cantava “Rosane, sua galinha, foi o PC que pagou sua calcinha”.) O motorista Eriberto França denunciou corajosamente os detalhes da trama, fez a imprensa chegar nos cheques de correntistas fantasmas e se tornou herói nacional – para logo depois ser esquecido.
A série termina com o impeachment. Apresenta aqueles flashes sobre o futuro das personagens principais, mas não acompanha a trajetória posterior de Collor, que voltou à política e hoje, condenado crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, cumpre prisão domiciliar em sua cobertura de 600m², de frente para a praia, em Maceió.
Para quem viveu a “era Collor”, a série traz pouca novidade – mas vale pelo resgate de muitas memórias. Tem agilidade, boas entrevistas, boas cenas de arquivo, uma trilha sonora embalada nos sucessos da época – que foi o momento de ascensão do sertanejo, não custa lembrar.
Revendo a história, fica claro que Collor foi um visionário. Entendeu, melhor que qualquer outro de sua geração, que a política estava se tornando um completo vale-tudo. Encarou Leonel Brizola, Lula, Paulo Maluf, Mário Covas, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves, todos políticos de longa trajetória, com liderança consolidada e conhecidos do Brasil inteiro. Entrou na disputa apenas com a cara (de pau) e a coragem. Fez as pontes com empresariado e com a mídia; usou os golpes mais sujos quando julgou necessário – o depoimento comprado de Mirian Cordeiro, ex-namorada de Lula, foi o mais vistoso – e chegou à presidência. Sem o menor preparo para ocupar o cargo, mas quem se importa?
Essa trajetória lembra a de quem?
No Planalto, exerceu a presidência em ritmo de campanha permanente. José Sarney, a quem sucedeu, era um fiel da “liturgia do cargo”. Collor, pelo contrário, apostava tudo na criação de imagens. Pilotou jato, andava de jet-ski, vestiu uniforme de camuflagem, tinha o hábito de correr usando camisetas que davam recados adequados às circunstâncias. Era, de cabo a rabo, uma figura de marketing. Muito do que nossa política atual tem de pior foi prenunciado por ele.
O que me ocorreu, assistindo a Caçador do marajás, é que talvez ele não tivesse sido retirado do cargo se não viesse de onde veio. Nas entrevistas de muitos jornalistas, fica evidente o preconceito antinordestino. É o caso de Mario Sergio Conti, elitista como sempre, rindo daqueles alagoanos que queriam ser respeitados por paulistas e cariocas. De Dora Kramer, cheia de condescendência com Rosane e sua família. Ou de Joyce Pascowich, que privou da intimidade de PC Farias e usufruiu de suas mordomias, mas se diverte debochando dele.
Também é um cadinho constrangedor ver Eduardo Bueno, hoje exposto como o homem dos contratos milionários com a Caixa, esbravejando contra a corrupção.
Chamou a atenção, ainda, ver Luiz Estevão entrevistado não apenas como íntimo de Collor, mas como alguém capaz de falar com autoridade sobre a história política recente.
Aliás, é curioso que, no esboço biográfico que o documentário faz de Collor, o caso Ana Lídia nem sequer seja mencionado. A menina de 8 anos foi estuprada, torturada e morta aqui em Brasília – segundo tudo indica, por Buzaidinho, filho do então ministro da Justiça do governo Médici. O rapaz logo sumiu e depois “morreu” em um acidente que muitos julgam que foi encenado. Embora um pouco mais velhos, Collor e também Estevão eram do mesmo grupo de bons à rien de Buzaidinho e corre o boato de que eles estavam na festa que precedeu o crime.
Por fim: Claudia Raia deve estar fula com o documentário. Ela é presença constante na tela, primeiro como garota-propaganda de Collor (ao lado de seu então marido, Alexandre Frota, que deu entrevista tentando se justificar), depois privando da intimidade do casal presidencial. É o tipo de passado que ela certamente gostaria de esquecer.
Charly Braun (dir.) – Caçador de marajás. Série documental em sete episódios. Globoplay, 2025.


