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Avatar de Antônio Augusto

Ótimo, necessário e elucidador artigo como sempre. Artigo com a essencial posição democrática (democracia que valha este nome, na tradição de Rousseau, é defesa dos interesses populares), por isso mesmo artigo radical e amplo, com a mais que atual defesa dos interesses nacionais diante do ataque imperialista de Trump ao Brasil. Faço ressalva, no entanto, à seguinte opinião externada no texto: "O modelo de regime autoritário chinês é bem semelhante, na verdade, com aquilo que Donald Trump deseja para si mesmo". É verdade em parte: a China está longe de ser um país em que a democracia seja valorizada. E, ao contrário do que pensam certos ingênuos, ou interessados, mergulhados em "wishful thinking", o amancebamento da China com o capitalismo está a anos-luz de ser um novo modo de produção intermediário necessário para se chegar ao socialismo. Aliás, esta imersão da China no capitalismo só fortalece arraigadas tradições autoritárias e antidemocráticas do país, que vêm de longe, de variadas vertentes, e tradições históricas, do confucionismo ao stalinismo. Mas, apesar dos pesares, ainda sobrevive muito na China a tradição da libertadora revolução socialista de 1949. Trump, por exemplo, muito ao contrário dos chineses, é um porrete das "big techs". Ou pense-se na atuação do Estado na China na economia chinesa, condenada por princípio, e execrada na prática, por neoliberais em economia e fascistas em política como Trump. Pense-se na relação contraditória da China com o próprio Brasil: enquanto se associa a uma potencial ação anti-imperialista fundamentada no BRICS avança na exportação de capital para o Brasil, com a consequente exploração econômica imperialista, inclusive com avanços sobre nossos recursos naturais, uma agressão à nossa soberania. Num mundo onde ocorrem guerras e genocídios não é possível assemelhar o regime chinês e o imperialismo dos EUA (em paroxismo com Trump), sem sublinhar as diferenças : é só se pensar na posição dos dois países quanto à tragédia que ocorre em Gaza, no conjunto da Palestina, ou em relação às agressões militares ao Irã. Enfim, criticar a China é preciso, mas não se pode jogar fora a criança com a água suja do banho.

Avatar de Tales

O texto é muito bom, como sempre, mas a questão da China continua merecendo mais nuance, que o autor tão bem emprega para quase todas as outras coisas. O fato de ser um sistema político de partido único não o torna necessariamente autoritário. É preciso verificar como se dá a participação da população nesse partido e, sobretudo, sua responsividade (na falta de um melhor termo para "responsiveness") às demandas populares. Há muito material de estudiosos e pensadores do sistema político chinês apontando níveis muito elevados das duas características. Em relação ao "capitalismo" chinês, sim, essa é uma leitura possível, embora estreita, de Marx, especialmente se se coloca a ênfase na economia de mercado. Mas lembremos que o próprio Marx era muito mais "condescendente" com características capitalistas na caminhada rumo ao socialismo do que os socialistas da sua época. Talvez seja uma chave interpretativa também para a China. Continuará havendo luta de classes na China, mesmo se a orientação for socialista/comunista. Como tal, o Partido Comunista precisa lidar com a classe capitalista e considerar estrategicamente como melhorar a posição da classe trabalhadora sem que esta perca a hegemonia política. A estratégia pode ter altos e baixos, ganhos e perdas. Isso não torna sua estratégia automaticamente capitalista. Poderia-se acrescentar ainda a questão histórica e a geopolítica internacional, dimensões em que a China ocupa posição antagônica às classes dominantes do capitalismo global. O (historicamente) curto período em que a China foi abraçada como "integrada" - a partir da entrada na OMC - já foi superado à medida que ficou claro que o país usou essa posição para desenvolver suas forças produtivas (e a consequente subida na cadeia global de valor). Enfim, o debate é bem mais amplo... Mas sigamos em frente!

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