O sovaco das ricas
Rico não sua porque o privilégio do rico é não trabalhar.
O Jornal do Brasil, que foi, em seu tempo, um dos grandes do Rio de Janeiro e o melhor do país, teve uma seção boboca intitulada “Perfil do consumidor”. Era inspirada no questionário Proust, aquele em que se pergunta às pessoas qual é sua cor favorita, seu animal favorito, sua maior qualidade ou defeito.
(Em geral, as pessoas respondem que seu maior defeito é a “generosidade”, o “perfeccionismo”, o “senso crítico” ou o “altruísmo”, isto é, se apresentam como tão perfeitas que até os defeitos são qualidades positivas, mas essa é outra conversa.)
Só que, como o nome indica, o principal no JB era que cada um falasse de suas marcas favoritas, em diferentes classes de produtos. A cada semana, era entrevistada alguma celebridade, ou sub: atores, cantores, socialites. Na época ainda não existiam infuenciadores.
Uma das perguntas era sobre o desodorante. Lembro que a moda era usar Ban, uma marca importada que era muito cara, difícil de encontrar no Brasil, logo servia como signo de distinção.
Isto é o esperado. No capitalismo contemporâneo, o consumo funciona como uma ferramenta central de distinção social, servindo de signo de capital cultural e, sobretudo, capital econômico. Por isso, algumas marcas investem tanto na construção de suas imagens, fazendo com que produtos banais – de camisas, bolsas e sapatos a garrafas de vinhos e automóveis – se tornem objetos de desejo e possam ser comercializados por preços que superam muitas vezes o seu valor de fabricação.
Daí, não falta consumidor que se preste ao papel ridículo se tornar um outdoor ambulante da empresa que julga que lhe dá status, pagando para exibir a marca e o nome em letras garrafais em roupas, bolsas e outros adereços.
Estilistas mais ousados ou arrogantes dobram suas apostas, colocando no mercado produtos cada vez mais horrendos e de qualidade mais vagabunda, na certeza de que não faltarão basbaques para correr atrás, já que tudo o que importa é marca – Balenciaga! - ostentada neles.
Por isso, ainda, a distinção dos verdadeiramente ricos é optar pelo “luxo discreto”, em que a ostentação não precisa de logotipos gigantes, sendo perceptível apenas para os iniciados. Em suma, tudo aquilo que Bourdieu descreveu e analisou em seu grande livro de 1979, chamado exatamente A distinção.
Volto ao desodorante, categoria em que Ban era a marca preferida dos ricos. Mas nem de todos, pois algumas pessoas respondiam assim: “Não uso, porque não preciso”.
Havia um viés de gênero aí; os homens nunca diziam não suar, certamente porque isso poderia comprometer sua macheza. Eram sempre mulheres as que não precisavam de desodorante.
(Embora o escritor Emmanuel Carrère conte que sua mãe, a historiadora Hélène Carrère d'Encausse, descendente da aristocracia russa, dizia que “um homem bem educado não transpira”.)
(Em algumas populações do Extremo Oriente, prepondera uma mutação genética que faz com que praticamente não tenham odor corporal. Não era o caso de nenhuma das entrevistadas do Jornal do Brasil, tenho certeza.)
O que está por trás disso é um traço marcante da nossa sensibilidade social: o estigma do trabalho físico. Quem trabalha não vai dispensar o desodorante, se tiver condições de comprá-lo. Como escreveu Carolina Maria de Jesus, em Quarto de despejo, depois que alguém a acusou de cheirar mal: “Quem trabalha como eu tem que feder”.



