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Avatar de Buongiorno, principessa!

Caramba! Estava pensando nisso semana passada. Numa luta de jiujitsu, disse que fulano tinha "judiado", muito de mim. Na hora, me contive e me detestei mentalmente (tenho um passado muito na polícia vocabular, quem, """de esquerda"""", nunca? kkkk). Enfim, logo fiquei me perguntando se todo esse nosso ímpeto de uma justiça social (que a gente acha que só vai ser alcançada pelos nossos meios, enquanto os outros são todos fascistas) não é também um revisionismo linguístico super perigoso. Os exemplos do seu texto são claros: as palavras se deslocam de seus significados e adquirem novos, se complexificam, se sintetizam ou se esvaziam completamente (vide o "empoderamento", que hoje significa praticamente quem pode consumir mais). Este é o processo orgânico de qualquer língua (quer queiramos ou não). Abolir o "judiar", talvez não seja reparar ninguém e nenhuma dívida histórica, pelo contrário, pode até nos levar a uma cegueira. Sendo bem sintética, acho que esse afã por cancelar palavras leva muitas vezes a gente pra uma negação do pensamento complexo. O burguês de hoje obviamente não é o mesmo da revolução francesa. No entanto, a palavra permanece aí. Na música pop ou em qualquer esquina (ok, não em qualquer uma, mas em muitas) e não gera desconforto nenhum. E precisamos ir além? Vamos falar do delírio da linguagem neutra? Talvez a mais autoritária, artificial, nonsense, elitista e paradoxalmente exclusivista dos batalhões da linguagem? No need, é revoltante demais.

Avatar de Gabriel Pinezi

Houve um momento, entre 1970 e 1990, que o Foucault e o Derrida trocaram farpas publicamente por conta de uma visão diferente em relação a como a linguagem e o poder (para Foucault) e a violência (para Derrida) operavam.

Derrida defendia uma visão heideggeriana da história e da historicidade, considerando que a "história" é sempre história das "metáforas", história da etimologia "apagada", "esquecida", mas sempre vigente, dos sentidos (junto a isso, há a tese trivial de Derrida de que TODA representação é violenta, sem exceções, retomada de forma acrítica por Butler, Spivak, etc.); Foucault fazia a leitura pragmática da linguagem, justamente para demonstrar que havia cortes, divergências entre práticas não-discursivas (que depois ele chama de "relação de poder") e sentidos linguísticos (significações, etc.), demonstrando que o poder não é necessariamente discursivo, nem tem fundamento semiótico (Foucault também não fala de violência, fala de poder, justamente para problematizar a visão trivial e jurídica de Derrida sobre violência, que ele julga muito marcada pela ética judaica-cristã).

Acabou que com o sucesso global da desconstrução em França e nos EUA, especialmente com Butler e os estudos críticos da raça, e com a proliferação do termo "estrutural" para explicar tudo e qualquer coisa, essas leituras derridianas e desconstrutoras se popularizaram, se transformando em polícia (no sentido preciso que o Rancière dá a esse termo, opondo-o à política). A visão mais pragmática de Foucault ficou esquecida, embora Foucault seja muito citado nesse meio (de maneira imprópria, na maior parte das vezes). Foucault diz várias vezes que existem relações entre discurso e poder, mas que o poder não é intrinsicamente linguístico, estrutural, semiótico, etimológico, etc.

No debate público, essas nuances de um problema sério são completamente desconsideradas, e o termo "estrutural" já é tratado, a despeito da intenção crítica original do estruturalismo, sob o ponto de vista dogmático. Especialmente, o texto de Spivak contra Foucault foi catalisador desse processo (fez parecer que a desconstrução e a semiótica estavam do lado das minorias, e que Foucault era positivista, estava do lado do capital, do neoliberalismo... Enfim, essas besteiras.)

Seria preciso retomar seriamente a história desse antigo debate, reabrindo a questão... mas tenho pouca fé de que seja possível no estado atual das coisas. Te acusam de tudo: revisionismo, racismo, antissemitismo, etc. Só não respondem aos argumentos. É mais fácil denunciar que todo mundo é violento em qualquer situação, rezando para um poder maior (polícia, direito, delegacia...) resolver as coisas, do que problematizar politicamente uma doxa que tem consequêncais sérias para os laços sociais, para a política.

ps.: última vez que quis discutir isso academicamente, criticando as teses de Derrida, me chamaram de "racista" e "antissemita" por Derrida ser africano e judeu... esse é o nível do debate hoje: você faz a crítica de uma teoria, e eles usam a teoria que você está criticando para te "enquadrar" como objeto de intervenção policial, e não para debater com outro sujeito do conhecimento que pode estar certo ou errado, que pode saber mais ou menos, etc.

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